Ensinamentos para sempre

A vida espiritual é repleta de boas surpresas e revelações. Porém, o ser humano costuma ser muito apressado, quer tudo de imediato, e perde a oportunidade de aprender sobre a vida, preocupado que está somente com as questões corriqueiras, como as sociais, profissionais, domésticas e de lazer. Isto o afasta cada vez mais de sua essência e do verdadeiro motivo pelo qual veio parar neste mundo: a sua evolução espiritual.
Se passamos aqui tão rapidamente, já não seria motivo suficiente para olharmos mais para dentro de nós, sentirmos esse imenso universo que nos habita, em última análise, Deus? Viver com tantos sentimentos, pensamentos, vibrações, emoções já não seria prova suficiente de que temos algo valioso a aprimorar, ou seja, nosso próprio espírito, ou alma?
Graças a Deus, ainda não fomos abandonados à margem do Plano Divino, pois tudo acontece segundo Sua Ordem, quer queiramos, ou não. Estamos recebendo muitas proteções desse imenso Plano. Se não, escolheríamos o dia e a forma de nossas mortes. Ou seríamos imortais aqui na Terra. Ou seríamos todos ricos, saudáveis, belos e sem problemas. Nada disso é verdade, porque não temos o total poder sobre nossas vidas; mas a sorte é ainda ter um grande domínio sobre nossos destinos. Nós podemos transformá-los, e muito!
Descobrir o Ten-Tao é descobrir um Caminho de Energia Luminosa, Dourada; é descobrir o Caminho de volta ao Céu de Origem, o elo com a Origem de todos nós. Aqui nesta seção do site, traremos sempre textos muito belos, que versam sobre o Tao (o Caminho), e sobre seres humanos que se esforçaram e se esforçam para sair desse estágio terreno para sempre e viver onde todos já deveríamos estar vivendo: no colo de Nossa Mãe Divina, ou seja, Deus.
Aproveitem as lições aqui contidas. É só “linkar” no texto de sua preferência. Boa leitura.

Jair Marcos, integrante do corpo voluntário do Santuário Central Ten-Tien
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TAO

* Tao está em tudo, em todos os lugares, na vida cotidiana.
* Após receber o Tao, é necessário fazer a purificação espiritual.
* Na purificação espiritual é importante aproveitar todas as chances de fazer caridades.
* A prática de caridades e virtudes pode apagar ou suavizar (amenizar) seu Karma.
* As pessoas do mundo apegam-se às coisas do mundo e deste modo a sua essência espiritual não se manifesta.
*Se a sua essência espiritual não se manifesta, a sua consciência também é encoberta.
* Se sua consciência não se manifesta, todas as suas ações implicam em sofrimentos.
* Por isso, se você quer ser um iluminado, é necessário ter a abertura de sua sabedoria (portal espiritual) e continuar a sua evolução espiritual e deste modo atingir a libertação.
* O objetivo de obter o Tao é achar o ponto em que possamos nos apoiar verdadeiramente.
* Normalmente as pessoas não sabem que existe esse ponto e se apóiam no próprio corpo físico; por isso não conseguem se tranqüilizar e procuram a tranqüilidade através das coisas externas.
* Hoje já recebemos o Tao e conhecemos nosso “verdadeiro eu”. Ele é o único ponto em que podemos nos apoiar verdadeiramente.
* O Quinto Patriarca Hun-zen disse: “Se o ser humano não conhece a si próprio (a sua verdadeira essência), não adianta aprender todos os ensinamentos do mundo”.
* O importante na evolução espiritual é andar no caminho do meio, ou do equilíbrio. Não se afastar da verdadeira essência, assim adquirindo a alegria e a felicidade da vida.
* O nosso “verdadeiro eu” pode ter milhares de transformações místicas.
* Nossa alma é doada por Deus. É originada de Lau-mu.
* Pode-se mudar um coração preocupado por um coração misericordioso; pode-se transformar o *ofrimento em alegria e felicidade. A bondade e a maldade nos acompanham conforme o estado de nossos corações.
*O nosso “verdadeiro eu” é comparado a um transformador da estação geradora, que pode mudar para a voltagem desejada, pois ao conhecer esse ponto poderá adquirir a tranqüilidade interior.
* Quando o coração interior se tranqüilizar, poderá trabalhar ou lapidar esse ponto (portal espiritual).
* Por que ainda é preciso lapidar esse ponto?
* Porque esse ponto, o “verdadeiro eu”, não é mais pureza, por isso ainda é preciso lapidar (aperfeiçoar).
* Quem está aperfeiçoando seu lado espiritual, um dia facilmente alcançará o estado de Iluminado, ou estado de Buda.
* Por que é tão fácil alcançar o estado de Buda?
* Por exemplo: a gangorra, que tem um ponto de apoio no centro. Basta pouca força aplicada em um lado, para que o outro lado da gangorra se levante.
* No centro de nossa cabeça também há um ponto de apoio que é o nosso “portal espiritual”.
*Basta que se tenha 30% de devoção (sinceridade) e esforço que o Céu (Deus) ajudará com 70%. Por isso facilmente se alcança o estado de Buda. Apenas necessita-se de sinceridade.
* As pessoas que manifestam seu coração de sinceridade podem receber a compaixão dos Budas (Deus).
* O Tao está sendo divulgado no mundo; os Budas querem o retorno de todas as pessoas ao Paraíso.
*Bodhi Darma disse: “Se não quiser salvar sua vida agora, quando poderá salvá-la?”. 
* O Buda Shakyamuni disse: “Viver cem anos e não conseguir se libertar da reencarnação vale menos do que viver um dia e obter o Caminho”.
* Por isso Confúcio disse: “Se receber o Tao de manhã, já posso partir deste mundo à tarde”.
*Para a transmissão deste caminho precisa-se de um mestre autorizado pelo Patriarca com uma especial ordem divina.
* O Sexto Patriarca Fui-Nem disse: “A nossa essência era originalmente pura e tranqüila. Para se tornar um Buda basta purificar este coração”.
* O caminho espiritual veio do Céu de Origem e ele permeia, abrange, penetra em todo universo.
* O espírito é uma centelha divina. Somos uma pequena parte de Lau-mu (Deus).
* O homem é parte integrante do universo. Faz parte dos três poderes (céu, terra e homem).
* Por isso o homem se completa. Por exemplo, o Céu e a Terra não falam. O homem fala para salvar as outras pessoas. O Céu envia o Sol e a Chuva, mas necessita do homem para fazer a colheita. Por isso, o homem em lugar do Céu transmite e divulga o Tao.
* A purificação espiritual consiste em aperfeiçoar o seu coração.
* Se souber que os desejos e apegos geram sofrimentos, isto é ter a perfeita sabedoria (Bodhi), e com isto não haverá sofrimento.

O Tao que pode ser dito ...

* O Tao que pode ser dito, não é o verdadeiro Tao.
* O Tao que está escrito, também não é o verdadeiro Tao.
* Bodhidarma disse: “Um pincel pode ter o tamanho do Himalaia. Você pode usar toda a tinta equivalente a uma grande fonte de água, e ainda assim você não encontra o Tao”.
* O Sexto Patriarca Fui-Nem disse: “As pessoas do futuro (de hoje), que desejarem retornar ao Paraíso, não vão precisar se apegar a sutras ou escritos sagrados externos, pois o seu estado de Buda se manifestará em sua alma original (interna)”. Antigamente era necessário muito estudo e purificação para atingir a iluminação.
* O 28º Patriarca Bodhidarma quando veio da índia para a China não trouxe nenhuma palavra escrita, somente sua determinação e força.
* Para retornar ao Céu de Origem é preciso receber o princípio uno, para reconhecer a nossa consciência e o verdadeiro “Eu”. 
* Este (nosso) verdadeiro “Eu” é dado por Deus, por isso é justo, é puro; não se acaba e nem se destrói. É eterno.
* Na purificação espiritual não se deve orgulhar-se de suas ações bondosas, nem se satisfazer com ações maldosas. Deve-se estar sempre no equilíbrio.
* O verdadeiro “Eu” (nossa consciência) se não tiver apego, não tiver distinção e não tiver comparação, ficará totalmente, verdadeiramente, no estado vazio (vácuo).
* Se há comparação, manifesta-se a raiva.
* Se há muita distinção, sempre vai haver egoísmo.
* A manifestação da consciência cósmica é muito sutil, muito difícil. Quando se purifica começa a se manifestar. 
* O ego é muito perigoso – é necessário vigiá-lo sempre.
* O aperfeiçoamento do Tao é como o bambu. Ter nós firmes e coração vazio.
* Manter firme a vontade do começo ao fim.
* Sempre manter o coração puro e tranqüilo.
* A purificação é como plantar lótus, raiz limpa, flor bela.
* Nossa alma é repleta de amor e misericórdia com a cega ambição pelo progresso da ciência, os homens abandonam a própria consciência, praticando atos ilícitos, objetivando o próprio bem-estar.
* As pessoas do mundo são como abelhas, voam para o leste e retornam ao oeste, quando finalmente consegue recolher o pólen de várias flores e produzir o mel. Os homens recolhem e não deixam nada.
* O Céu deixa cair o orvalho, os Budas deixam os sutras, o homem deixa seus descendentes e a grama deixa a raiz.
* O Céu deixa cair o orvalho para criar todas as coisas.
* O Buda deixou o sutra para salvar as pessoas.
* O homem tem filhos para que cuidem dele na velhice.
* A grama deixa a raiz para que brote na Primavera. A grama nasce e morre, mas a raiz permanece.
*E triste é o homem que quando morre e não volta mais, nada leva, a única coisa que carrega é o seu Karma.

A Árvore da Sabedoria Búdica e o Espelho Brilhante

Trecho do Rokuso-Dankyo, biografia do Sexto Patriarca Hui-Neng

Em Shinshu, aldeia do sul da China, vivia um jovem camponês de nome Lu. Perdera o pai quando tinha ainda três anos de idade e trabalhava para sustentar a mãe, que vivia com ele.
Era muito pobre e totalmente analfabeto. Costumava levar lenha à cidade para vender, mas era muito baixo e feio e ninguém lhe dava atenção.
Um dia, quando foi à cidade, conseguiu com muita dificuldade vender sua lenha a um negociante. Quando ia sair do estabelecimento deste, levando o dinheiro obtido com a transação, reparou num indivíduo, possivelmente um freguês do negociantes, lendo de pé e em voz alta, um livro que segurava com ambas as mãos.
Lu aproximou-se para ouvir, mas não entendeu nada. Entretanto, algo havia naquela leitura que o impressionara vivamente.
- Que livro é esse? – perguntou ao homem
- É um sutra.
- Que sutra?
- O Sutra do Diamante.
Profundamente fascinado, o jovem perguntou:
- Onde conseguiste arranjar esse livro?
O homem, comovido com o entusiasmo daquele pequeno lenhador sujo e feio, respondeu:
- Eu venho do templo Tôzenji, da Província de Kôbai. Lá vive um grande Mestre, de nome Daiman Kônin.
Tem ele cerca de mil discípulos. Muito tempo atrás veio da Índia um Mestre, de nome Bodidharma, que ensinou um novo Caminho de Libertação, conhecido pelo nome de Zen.
Daiman Kônin é precisamente o Quinto Mestre, ou Patriarca, de uma linhagem começada com esse Bodidharma. Ele manda seus discípulos lerem o Sutra do Diamante para obterem por si mesmo a Iluminação. Por isso, também sempre leio o Sutra.
Lu, cada vez mais entusiasmado, manifestou o desejo de ir ter com o Mestre Kõnin. O homem, olhando-o com atenção, disse-lhe:
- Queres mesmo ir ao templo Tôzenji? Olha que fica muito longe...
- Por mais que seja, quero ir.
- Já que pensas assim, por que não vais?
- Infelizmente não posso, pois preciso cuidar da minha velha mãe.
- Isso não é problema. Toma isto e leva para tua mãe. Será suficiente para seu sustento.
Assim dizendo, o bondoso homem entregou dez moedas a Lu, que ficou imensamente comovido.
Voltando correndo para casa, Lu entregou o dinheiro para a mãe e, depois de se despedir dela, deixou para sempre sua terra natal, rumando para a Província de Kôbai, no norte. Viajou durante trinta dias, sempre a pé, e chegou, por fim, ante o portão do templo Tôzenji.
O Mestre Kônin aceitou aquele pequeno e feio lenhador como serviçal do templo. Seu serviço seria cortar lenha e beneficiar arroz com o pilão.
Lu, bastante satisfeito, todas as manhãs saía bem cedinho para cortar lenha. Finda essa primeira tarefa, passava o resto do dia a trabalhar com o pilão num canto do pátio, atrás das edificações do templo.
Passaram-se oito meses, mas Lu não recebera ainda ensinamento algum. Entretanto, pouco a pouco, sua firme intenção de obter a Iluminação ia produzindo seus frutos, enquanto ele beneficiava arroz e cortava lenha.
Certo dia, o mestre Kônin reuniu todos os discípulos no edifício principal do templo e disse-lhes:
- Manifestai vosso estado de espírito através de gathas (poemas) e, vinde mostrá-los a mim. Pretendo transferir o manto e a escudela transmitidos desde Bodidharma para aquele que tiver obtido a Verdadeira Iluminação, assim fazendo dele o meu sucessor. Através dos gathas, eu saberei quem estará realmente Iluminado e apto, portanto, a receber o titulo de Sexto Patriarca.
Após se retirarem da presença do Mestre, os discípulos começaram a conversar entre si:
- Por mais que nos esmeremos na composição dos gathas, nada obteremos, pois Jinshu é muito superior a nós.
- Claro, Jinshu, o primeiro entre os discípulos, aquele que sempre nos instrui e orienta, será
sem dúvida o Sexto Patriarca.
- Eu também acho. Nem adianta a gente se esforçar para escrever gathas.
Assim ninguém tentou sequer compor gathas para mostrar ao Mestre.
Jinshu pôs-se então a pensar:
- Ninguém pensa em escrever gathas, uma vez que até agora tenho sido eu o orientador e instrutor de todos eles. Eu é que devo, pois, escrever um gatha e levá-lo ao Mestre: mas aprovar-me-á, ele ? Este é, em verdade, um momento bastante crítico para mim.
Circundando o edifício principal do templo, havia um comprido corredor. Jinshu, após escrever seu gatha, seguia por ele rumo à cela do Mestre, sentindo o suor escorrer por todo o corpo. Estava com medo de mostrar o poema ao Mestre.
Acabou, por fim, voltando à sua própria cela, onde passou muito tempo calado, a meditar.
Passaram-se quatro dias. Cerca de treze vezes, Jinshu avançou até a porta da cela do Mestre e voltou para trás, coberto de suor. Por fim, lembrou-se de escrever o gatha na parede do corredor. Se todos o aprovassem, ele, então, se apresentaria como seu autor.
Se o reprovassem, ele se retiraria do templo e passaria a viver como eremita nas montanhas.
À noite, Jinshu dirigiu-se sozinho ao corredor, munido de uma lanterna, e, tomando um pincel, escreveu na parede o seguinte poema:
“O corpo é a Árvore da sabedoria Búdica.
A mente é semelhante a um espelho brilhante:
Trata de limpá-la constantemente,
Não deixes que sobre ele se acumule a poeira.”
Voltando para sua cela, Jinshu passou o resto da noite bastante apreensivo com o que o Mestre iria dizer de seu poema.
Quando amanheceu, os monges que viram o poema escrito na parede do corredor, começaram a conversar entre si, bastante admirados:
- Eis poema que revela uma Verdadeira Iluminação.
- Quem o terá escrito?
- Não sei, mas certamente seu autor receberá o manto e a escudela que farão dele o Sexto Patriarca.
As vozes dos monges que estavam no corredor chegaram por fim aos ouvidos do Mestre Kônin. À noite o Mestre chamou Jinshu à sua cela e perguntou-lhe:
- Foste tu que escreveste aquele gatha?
Jinshu respondeu: - Sim, mas não desejo, absolutamente, tornar-me o vosso sucessor. Queria apenas mostrar-vos se estou ou não Iluminado.
- Tu não atingiste ainda a Iluminação. Avançaste várias vezes até a porta de minha cela, mas não ousaste entrar. Concentra-te durante mais dois dias e escreve um novo poema. Se o conseguires trazer até aqui para mostrar-me, eu te darei o manto e a escudela que farão de ti o Sexto Patriarca.
Jinshu, com a fronte banhada em suor, voltou obedientemente para sua cela.
Passaram-se cinco dias e nada de Jinshu apresentar um novo gatha. Mostrava-se ele preocupado e nem conversava com os colegas.
Num canto do pátio, nos fundos do templo, Lu ocupava-se como sempre a beneficiar o arroz. A seus ouvidos nem sequer tinham chegado os rumores do que se passava no templo principal, mas, a certa hora, um noviço passou junto dele recitando em voz alta o gatha de Jinshu.
Lu, ouvindo o gatha, chamou o noviço, sem interromper sua tarefa:
- Espera um pouco noviço!
- Que queres, beneficiador de arroz?
- O que é isso que estás recitando?
- É um gatha.
- O que é um gatha?
Divertido com a ignorância do pequeno lenhador, o noviço explicou-lhe:
- Gatha é um poema através do qual procuramos expressar nosso estado de espírito. O rosto de Lu iluminou-se:
- Expressar o estado de espírito? Foste tu mesmo quem compuseste o gatha que recitavas há pouco?
- Não, e nem se sabe quem é seu autor. Apareceu ele escrito na parede do corredor. Todos o estão elogiando, pois é um gatha magnífico.
- Eu sempre tenho estado aqui a beneficiar o arroz e jamais entrei no edifício principal. Podes me levar até lá para que eu também veja o gatha?
- Pois vê e adora-o.
O noviço conduziu Lu para o corredor, onde se encontrava um monge de nome Chô. Lu pediu-lhe que lesse o que estava escrito na parede. Chô leu-lhe o poema em voz alta e Lu, todo sorridente, disse então:
- Eu também vou compor um gatha
- Um gatha? Tu és capaz disso?
- Por favor, escreve-o por mim, pois sou analfabeto.
- Dita então, que eu escreverei.
Lu então pôs-se a ditar o seguinte poema, que Chô imediatamente escreveu na parede:
“A Sabedoria Búdica nunca foi uma árvore
A mente nunca foi um espelho brilhante:
Na verdade, não existe coisa alguma!
Onde irá então acumular-se a poeira?”
Lu voltou correndo para o pátio e retomou seu serviço.
Muita gente reuniu-se no corredor. Estranhando o novo poema escrito na parede, os monges conversavam entre si:
- Que frases esquisitas!
- Quem terá escrito isso?
O noviço esclareceu aos companheiros:
- Foi Lu, o beneficiador de arroz, que pediu para Chô escrever.
- Lu, o beneficiador de arroz? Nunca podíamos esperar isso de um pobre diabo como ele!
Ouvindo o barulho no corredor, o Mestre Kônin apareceu. Ao ler o gatha, descalçou os sapatos, apagou com eles o poema e disse a todos:
- Esse também não está Iluminado!
Entretanto, tinha ele percebido que Lu já tinha chegado ao estado de Iluminação.
Todos ficaram comentando:
- É natural que um lenhador que jamais praticou a meditação esteja longe de obter a Iluminação.
O Mestre calçou os sapatos e voltou para sua cela. Tinha ele apagado o poema e dito aquilo, simplesmente para evitar que Lu fosse alvo de inveja dos colegas. No dia seguinte, Kônin desceu sozinho ao pátio, onde Lu estava entregue à faina rotineira de beneficiar o arroz. Aproximando-se do rapaz, disse-lhe:
- Então? Esse arroz já está branco?
Estava se referindo indiretamente ao problema da Iluminação. Lu respondeu sorrindo: - Sempre esteve branco, mas eu luto para que ele manifeste sua brancura com a maior pureza!
O Mestre bateu três vezes na borda do pilão com sua bengala e retirou-se. As três batidas significavam : - Esta noite, quando o tambor das horas soar três vezes, vem ter à minha cela.
Quando chegou a hora assim combinada, Lu dirigiu-se para a cela do Mestre. Sentia-se satisfeito e não tinha o menor receio ou hesitação.
O Mestre, sozinho em sua cela, aguardava a vinda de Lu: - Senta-te diante de mim – ordenou ele, quando o rapaz entrou. Lu obedeceu.
Vou ler-te o Sutra do Diamante, anunciou o Mestre.
Kônin começou a ler e Lu o ouvia calado. De repente, o Mestre levantou a voz: - A mente não deve estar apegada a coisa alguma, mas deve ser manifestada!
O rosto de Lu iluminou-se ainda mais. Kônin percebeu que agora sua Iluminação estava completamente amadurecida. – Então? Perguntou ele.
Lu respondeu: - Nunca pensei que minha Verdadeira Natureza fosse originalmente tão pura, que ela nem nasce nem morre, que ela originalmente contém dentro de si todas as coisas, que ela jamais perece e é a origem de tudo.
Lu tinha, enfim, chegado ao conhecimento de sua Verdadeira Natureza.
O Mestre então retrucou sorrindo: - Isso mesmo! Sem conhecer a própria natureza, todo e qualquer estudo será inútil. Serás meu sucessor, serás o Sexto Patriarca! Muda teu nome para Hui-Neng e toma o manto e a escudela transmitido desde Bodidharma!
Assim Lu, o pequeno lenhador de Shinshu, tornou-se o sexto Patriarca Zen.

O Sutra do Diamante (Vajracchedika Prajna Paramita)

Traduzido da versão inglesa pelo Reverendo Chuan Yuan Shakya

(1) Assim eu ouvi. Uma manhã, quando o Buddha estava perto de Shravasti no bosque de Jeta, Ele e Sua comunidade de mil duzentos e cinquenta monges foram à cidade para mendigar sua refeição matinal; e depois que voltaram e terminaram a refeição, deixaram de lado seus robes e tigelas e lavaram seus pés. Então o Buddha sentou-se e os outros sentaram diante dele. 
(2) Do meio da assembléia levantou-se o Venerável Subhuti. Ele descobriu seu ombro direito, ajoelhou-se sobre a perna direita, e, juntando as palmas das mãos, inclinou-se diante do Buddha. “Senhor”, ele disse, “Tathagata! Honrado-por-todo-o-mundo! Que maravilhoso é que sejamos protegidos e instruídos pela Sua misericórdia! Senhor, quando homens e mulheres anunciam que desejam seguir o Caminho do Bodhisattva e nos perguntam como devem proceder, que devemos dizer-lhes?” 
(3) “Bom Subhuti”, respondeu o Buddha, “sempre que alguém anuncia, ‘Eu quero seguir o Caminho do Bodhisattva porque quero salvar todos os seres sencientes; e não importa se são criaturas formadas em um útero ou chocadas em ovos; se seus ciclos de vida são tão observáveis como os de minhocas, insetos e borboletas; ou se aparecem miraculosamente como cogumelos ou deuses; ou se são capazes de pensamentos profundos ou de nenhum pensamento, faço o voto de conduzir cada um dos seres ao Nirvana!’ então, Subhuti, deves lembrar o que tomou os votos que mesmo que um tal incontável número de seres fosse assim libertado, na verdade nenhum ser seria libertado. Um Bodhisattva não se apega à ilusão de uma individualidade ou entidade egóica ou a uma identificação pessoal. Na verdade, não existe qualquer "eu" que liberta e nenhum "eles" que são libertados.” 
(4) “Além disso, Subhuti, um Bodhisattva deveria ser desapegado de todos os desejos, sejam de ver, ouvir, cheirar, tocar ou degustar qualquer coisa, ou seja, o de levar multidões à iluminação. Um Bodhisattva não prova da ambição. Seu amor é infinito e não pode ser limitado por apegos ou ambições pessoais. Quando o amor é infinito seus méritos são incalculáveis.” 
“Diga, Subhuti, podes medir o céu oriental?”
“Não, Senhor, não posso.”
“Podes medir o espaço que fica ao Sul, Oeste, Norte ou mesmo para baixo ou para cima?”
“Não, Senhor, não posso.”
“Nem podes medir os méritos de um Bodhisattva que ama, trabalha e dá sem desejo ou ambição.”
“Bodhisattvas deveriam prestar atenção particular a esta instrução.”
(5) “Subhuti, o que achas? É possível descrever o Tathagata? Pode Ele ser reconhecido por características materiais?”
“Não, Senhor, não é possível submeter o Tathagata a diferenciações ou comparações.”
Então o Senhor disse: “Subhuti, na fraude do Samsara, todas as coisas são vistas como diferentes ou com diferentes atributos, mas na verdade do Nirvana nenhuma diferenciação é possível. O Tathagata não pode ser descrito.”
“Quem quer que perceba que todas as qualidades não são, na verdade, qualidades determinadas, percebe o Tathagata.”
(6) Subhuti perguntou ao Buddha: “Honrado-pelo-mundo, sempre haverá homens que compreenderão este ensinamento?”
O Senhor respondeu: “Subhuti, não duvides disso! Sempre haverá Bodhisattvas virtuosos e sábios; e, em eras por vir, estes Bodhisattvas plantarão suas raízes de mérito sob muitas árvores Bodhi. Receberão este ensinamento e responderão com serena fé porque sempre haverá Buddhas para inspirá-los. O Tathagata os verá e os reconhecerá com seu olho-Búddhico porque nestes Bodhisattvas não haverá obstruções, nem percepção de um eu individual, nenhuma percepção de um ser separado, nenhuma percepção de uma alma, nem de uma pessoa. E estes Bodhisattvas também não vão perceber as coisas como tendo qualidades próprias nem como sendo destituídas de qualidades próprias. Nem vão discriminar entre bem e mal. A discriminação entre boa e má conduta deve ser usada como se usa um barco. Depois que deixa aquele que cruzou a corrente no outro lado, deve ser abandonado.” 
(7) “Diga, Subhuti, O Tathagata conseguiu a Perfeita Iluminação que Transcende Comparações? Se assim é, há algo sobre ela que o Tathagata pode ensinar?”
"Subhuti respondeu: “Da maneira como entendo o ensinamento ele não pode ser ensinado e não pode ser atingido ou compreendido e nem pode ser ensinado. Por quê? Porque o Tathagata disse que a Verdade não é uma coisa que pode ser diferenciada ou contida e então a Verdade não pode ser compreendida ou expressada. A Verdade nem é e nem não é.” 
(8) Então o Senhor perguntou: “Se alguém enchesse três mil galáxias com os sete tesouros - ouro, prata, lápis-lazuli, cristal, ágata, pérolas vermelhas e cornalina - e desse tudo o que possuísse como esmola ou caridade, ganharia grande mérito?” 
Subhuti respondeu: "Senhor, grande mérito, de fato, caberia a ele ainda que, na verdade, ele não tenha uma existência separada à qual o mérito pudesse ser associado.” 
Então o Buddha disse: “Suponha que alguém entendesse apenas quatro linhas do nosso Discurso mas ainda assim resolvesse se dar ao trabalho de explicar estas linhas para alguém mais; então, Subhuti, seu mérito seria maior que o do doador de esmolas. Por quê? Porque este Discurso pode produzir Buddhas! Este Discurso revela a Perfeição da Iluminação que Transcende Comparações!” 
(9) “Diga, Subhuti. Um discípulo que começa a cruzar a corrente diz a si mesmo: `Eu mereço as honras e recompensas de alguém que começou a cruzar a corrente?’” 
“Não, Senhor. Alguém que realmente esteja entrando na corrente não pensa em si mesmo como uma ego-entidade isolada que possa merecer qualquer coisa. Apenas aquele discípulo que não vê diferença entre si mesmo e os outros, que não dá importância a nome, forma, som, odor, gosto, tato ou qualquer qualidade pode ser chamado como um daqueles que entraram na corrente.” 
"Um adepto que esteja sujeito a apenas um renascimento mais diz a si mesmo: ‘Eu mereço as honras e recompensas de alguém que só renascerá uma vez mais?’” 
“Não, Senhor: ‘Um que renascerá uma só vez mais’ é apenas um nome. Não há falecimento ou volta à existência. Apenas quem compreende isto pode ser chamado um adepto.” 
“Um Venerável que nunca mais terá que nascer como um mortal diz a si mesmo: ‘Eu mereço as honras e recompensas de alguém que não mais retornará?’” 
“Não, Honrado-pelo-mundo. ‘Alguém que não retornará’ é apenas um nome. Não existem o retornar ou o não-retornar.”
“Diga, Subhuti. Um Buddha diz a si mesmo: ‘Eu atingi a perfeita Iluminação?’”
“Não, Senhor. Não há nada como uma Iluminação Perfeita a se obter. Senhor, se um Buddha Perfeitamente Iluminado dissesse a si mesmo, ‘tal sou eu’ ele estaria admitindo a existência de uma identidade individual, um eu e uma personalidade separadas e neste caso não seria um Buddha Perfeitamente Iluminado.” 
“Ó, Honrado-pelo-mundo! Havíeis declarado que eu, Subhuti, me distingui entre teus discípulos no conhecimento da bem-aventurança do samadhi, em viver perfeitamente contente e satisfeito em reclusão, e em ser livre das paixões. Ainda assim não digo a mim mesmo que o sou, pois se pensasse em mim mesmo como tal, então não seria verdade que escapei da ilusão do ego. Sei que na verdade não há Subhuti e, portanto, Subhuti não reside em qualquer lugar, que ele não conhece e nem ignora a bem-aventurança, e que não é livre e nem escravo das paixões.” 
(10) O Buddha disse, “Subhuti, que pensas? No passado, quando o Tathagata estava com Dipankara, o Completamente Iluminado, Ele aprendeu algo dele?” 
“Não, Senhor. Não há algo como uma doutrina a ser aprendida.” 
“Subhuti, saibas também que se qualquer Bodhisattva dissesse, ‘Eu vou criar um paraíso’, ele estaria mentindo. E por quê? Porque um paraíso não pode ser construído nem destruído.” 
“Saibas então, Subhuti, que todo o Bodhisttva, maior ou menor, deveria experimentar a pura mente que vem depois da extinção do ego. Tal mente não discrimina e faz julgamento de som, gosto, toque, odor, ou qualquer qualidade. Um Bodhisattva deveria desenvolver uma mente que não forma qualquer apego ou aversão a qualquer coisa.” 
"Suponhas que um homem fosse dotado de um corpo enorme, tão grande que tivesse a presença pessoal como a de Sumero, o rei das montanhas. Sua existência pessoal seria grande?” 
"Sim, Senhor. Seria grande, mas ‘existência pessoal’ é apenas um nome. Na verdade, ele nem existiria e nem não existiria.” 
(11) “Subhuti, se houvesse tantos rios Ganges quanto há grãos de areia no rio Ganges, o total de grãos seria grande?” 
“Grande, de fato, Honrado-por-todo-o-mundo. Seria mais fácil contar todos os rios Ganges, do que contar o total combinado de grãos de areia neles todos!” 
“Subhuti, vou te contar uma grande verdade. Se alguém enchesse três mil galáxias com os sete tesouros para cada grão de areia em todos esses rios Ganges e desse isso tudo como esmola ou caridade, ganharia muito mérito?” 
“Muito mérito, certamente, Senhor.” 
Então o Buddha declarou: “No entanto, Subhuti, se alguém estudasse nosso Discurso e entendesse apenas quatro linhas dele, mas então explicasse essas quatro linhas para alguém mais, o mérito conseqüente seria muito maior.”
(12) “Além disso, Subhuti, onde quer que aquelas quatro linhas sejam proclamadas, aquele lugar deveria ser venerado como um Santuário do Buddha. E a veneração seria proporcional ao número de linhas explicadas!” 
“Qualquer um que compreenda e explique este Discurso em sua totalidade consegue a mais alta e mais maravilhosa de todas as verdades. E onde quer que esta explicação seja dada, lá, naquele lugar, deverias te conduzir como se estivesses na presença do Buddha. Em tal lugar deverias te curvar e oferecer flores e incenso.” 
(13) Então Subhuti perguntou: “Honrado-por-todo-o-mundo, por que nome deveria este Discurso ser conhecido?” 
O Buddha respondeu: “Este Discurso deveria ser conhecido como o Vajracchedika Prajna Paramita - o Lapidador da Sabedoria Transcendental - porque é o Ensinamento que é duro e afiado e corta a concepção errada e a ilusão.” 
(14) Neste ponto o impacto do Dharma levou Subhuti a derramar lágrimas. Então, enquanto limpava a face, ele disse: “Senhor, que precioso é que pronunciastes este profundo Discurso! Já faz muito tempo que meu olho da sabedoria foi aberto pela primeira vez; mas desde aquele dia até hoje nunca havia ouvido uma explicação tão maravilhosa da natureza da Realidade Fundamental.”
“Senhor, sei que por muitos anos ainda haverá homens e mulheres que, sabendo do nosso Discurso, o receberão com fé e entendimento. Serão livres da idéia de uma entidade-ego, livres da idéia de uma alma pessoal, livres da idéia de um ser individual ou existência separada. Que realização memorável essa liberdade será!” 
(16) “Subhuti, apesar de neste mundo ter havido milhões e milhões de Buddhas, e todos tendo muito mérito, o maior mérito de todos virá àquele homem ou mulher que, quando nossa Época Búddhica chegar próxima ao seu fim no período dos últimos quinhentos anos, receber este discurso, considerá-lo, tiver fé nele, e então explicá-lo a alguém mais, resgatando assim nossa Boa Doutrina do colapso final.”
(17) “Senhor, como então deveríamos instruir aqueles que querem tomar o voto do Bodhisattva?” 
“Diga a eles que se quiserem chegar à Perfeita Iluminação que Transcende Comparações eles devem estar decididos em suas atitudes. Devem estar determinados a libertar cada ser vivente, mas devem entender que na verdade não há seres vivos individuais ou separados.”
“Subhuti, para ser chamado um Bodhisattva na verdade, um Bodhisattva deve ser completamente destituído de quaisquer concepções de um si mesmo.”
(18) “Diga, Subhuti, o Tathagata tem o olho humano?” 
“Sim, Senhor, Ele tem.” 
“E o Tathagata tem o olho divino?” 
“Sim, Senhor, Ele tem.” 
“E o Tathagata possui o olho gnóstico?” 
“Sim, Honrado-por-todo-o-mundo.” 
“E Ele possui o olho da sabedoria transcendental?” 
“Sim, Senhor.” 
“E o Tathagata possui o olho-Búddhico da onisciência?” 
“Sim, Senhor, Ele o tem.” 
“Subhuti, apesar de haver incontáveis Terras Búddhicas e incontáveis seres com diferentes mentes nessas Terras Búddhicas, o Tathagata compreende a todos com sua Mente que Tudo Abarca. Quanto às suas mentes, são meramente chamadas de ‘mente’. Tais mentes não tem existência real. Subhuti, é impossível reter a mente do passado, impossível reter a mente do presente, e impossível apreender a mente do futuro porque em nenhuma de suas atividades a mente tem substância ou existência.” 
(32) “E finalmente, Subhuti, novamente saibas que se um homem desse tudo o que tem - tesouros suficientes para encher incontáveis mundos - e outro homem ou mulher acordasse para o puro pensamento da Iluminação e tomasse apenas quatro linhas deste discurso, as recitasse, considerasse, compreendesse e então, para o benefício de outros, as distribuísse e explicasse, o mérito deste ou desta seria o maior de todos.” 
“Agora, como deveria ser a maneira de um Bodhisattva explicar estas linhas?” 
“Deveria ser desapegado das coisas fraudulentas do Samsara e deveria permanecer na verdade eterna da Realidade. Deveria saber que o ego é um fantasma e que tal ilusão não precisa persistir por muito tempo.” 
"E assim ele deve ver o mundo impermanente do ego -
Como uma estrela cadente, ou a vaidosa Vênus ofuscada 
pela Aurora, Pequena bolha na água corrente, um sonho, 
A chama de uma vela, que tremula e se vai.”
Quando o Buddha terminou, o Venerável Subhuti e os outros na assembléia se encheram de alegria com o ensinamento d’Ele; e, recebendo-o sinceramente em seus corações, tomaram seus caminhos.

Uma versão abreviada. As seções 19 a 31 foram omitidas porque repetiam seções anteriores. O capítulo 17 foi omitido pelo tradutor para o Inglês, Edward Conze, porque, nas suas palavras: "No capítulo 17 o Sutra volta ao começo. A questão do capítulo 2 é repetida, do mesmo modo como a resposta do capítulo 3. 17-a-d sucessivamente considera os estágios da carreira de um Bodhisattva, exatamente como os capítulos 3 a 5, e novamente o capítulo 10 o fez. Com a ausência de uma real entidade para sua principal idéia, o capítulo 27 novamente cobre terreno antigo.. O 17a corresponde ao 3; 17b ao 10a; 17d ao 7, 14g ao final do 8; 17e ao 10c, e o 17g ao 10b."